Natal diferente

Era novembro. Desde a festa de Halloween, começaram os preparativos para o Natal. Pareciam um pouco precipitados, mas queriam fazer tudo certo dessa vez. Estavam todos animados, empolgados e cheios de esperanças. Menos ele.
Ele também esperava o Natal e queria que tudo desse certo. Mas tinha algo simplesmente errado, e ele não sabia dizer o que. Como algo que se vê no canto do olho, e quando se vira, desaparece.
O Natal vem aí, anime-se todos.
Tiraram amigo oculto, e faltava um mês para o dia.
Duas semanas depois, e todos foram ao supermercado. Já eram todos grandes, e se separam em grupos para comprar cada item. E começou a confusão. Uns queriam peru, como fora todos os anos, mas outros queriam mudar, e queriam pernil. A discussão foi breve, e terminaram comprando o pernil. Depois discutiram as sobremesas, e ele sugeriu que se fizessem todas, em porções menores, mas que todos pudessem comer.
Chegaram com o carro cheio de compras. Ninguém quis levar por todas as escadas e os irmãos brigaram. Um dizia que já havia carregado outra vez sozinho. Os outros alegavam o mesmo. Até os pais entrarem na briga, dizem que já eram quase adultos e que agissem como tal. Todos carregaram, em silêncio.
Mas eram só compras de Natal.
Os tios se juntaram para saber o que fariam no Natal. Os pais, que já estavam estressados, não mais animados, não queriam mais sujar toda a casa porque sempre sobravam para eles. E foi a vez dos adultos discutirem. Decidiram fazer na casa dos pais, que sempre viam na véspera. Já estavam velhos, seria melhor se deslocar até eles. A casa era pequena, mas caberiam todos.
O Natal chegava, tempos de paz.
Saíram para comprar presentes. Shopping lotado. Qualquer um ficaria irritado, e a família brigou de novo. Um das meninas escolheu um vestido, só que a outra disse que já tinha gostado e não queria roupa igual. Foram em outra loja e compraram outra roupa, uma para o Natal e outra para o Ano Novo. Ele ficou calado, observando, mas depois compraram roupas novas para ele também.
Estava chegando o Natal, tempos de esperança.
A sensação nele aumentava. Algo estava errado, como uma bomba prestes a explodir.
Véspera de Natal. Compras de última hora. Briga: Quem sairia para comprar. Os pais não queriam emprestar o carro, eles já bateram quando saíram com amigos. A briga mudou de rumo.
Ele arrumava a mesa, escutando a briga, sempre alta. Então, como um pisca-pisca que se acendeu, ele entendeu. A bomba explodiu.
“Está tudo errado!”, ele gritou. “Tudo errado!”.
Todos olharam para ele. Costuma ser sempre quieto, e quase nunca participava das brigas, ou quase sempre acabava com uma solução pacifica.
Ele suava, e tremia. Fechou os punhos e começou a falar.
“Todos os dias, escuto por aí: ‘O Natal é tempo de paz’, e todos nós pregamos isso.”, começou ele. “Mas quem de vocês sentiu a paz? Primeiro dentro de si mesmo, depois refletindo a sua volta?”. Ele parou, e respirou, ofegante.
“Todos dizem que o Natal é tempo de esperança, mas quem que espera algo novo acontecer, se está sempre fazendo a mesma coisa?”, olhou pra todos, sem esperar resposta. “Comida boa, roupas novas, presentes, isso tudo é muito bom, mas estão todos cientes do que estão fazendo? Ou seguem apenas por costume?”.
“É como o Papai Noel, ele pode não existir como a figura que fomos familiarizados, mas acho que ele deve existir dentro de nós, independente da religião”. “Também não é algo que deva ser periódico, será que só se deve ser bom quando todos estão sendo?”.
“E de todos que erraram, eu fui o que mais errei.”, olhou para baixo, então. “Não é de hoje, que venho vendo como essa família está caminhando, achando que algo estava errado”. Olhou para todos, sentindo-se quente, misto de vergonha e exasperação. “Foi então que percebi, não havia algo errado. Estava tudo errado. E o que via, era a única coisa certa: Estamos fazendo esse Natal juntos!”.
Todos o abraçaram, chorando. Esqueceram seus problemas. E tiveram um Natal como os anos anteriores, mas diferente de qualquer um de suas vidas. Estavam comemorando o verdadeiro Natal.
Você pode acreditar nessa história ou simplesmente virar a página, depende de você, e de sua fé. Mas se esperança é a última que morre, qual é a crença que te mantém vivo?