Esqueletos no armário

Estava tudo bem. Sempre estava tudo tranqüilo em sua vida. Fazia questão disso, controlava tudo para manter a total ordem.
Era excessivamente metódico, mas estava cada vez pior. Controlava clinicamente cada mínimo detalhe de tudo. Mas o que importava era que estava tudo indo de vento em popa.
Seu casamento estava indo bem na medida do possível, seu filho não estava descontente com ele (o que já era muita coisa) e o mais importante, sua carreira estava voando baixo. Tudo graças a ele, o famoso e cobiçado Premio Nobel, o Oscar da ciência.
Sim ele havia ganhado, suou até o fim, lutou e conseguiu. Era agora um cientista mundialmente conhecido e elogiado. Oportunidades de emprego maravilhosas choviam aos seus pés. E o dinheiro entrava em uma facilidade nunca antes vista.
Todo dia ele ia até a sala do premio, olhava para ele por algum tempo, limpava e ia embora. Era sem dúvida o mais precioso de seus bens.
Orgulhava-se de todo seu esforço e por nunca ter feito nada que se arrependesse. Arrependimento naquele homem era nulo.
Então começou. Um dia normal, ele foi novamente ver seu premio valioso. Olhou fixamente para o Nobel por horas em silencio e quando ia embora viu; uma pequena porém ainda assim extremamente irritante manchinha na parte lateral de seu amado premio.
Na hora ficou extremamente nervoso. Limpou-a com um pano rapidamente e foi embora.
Brigou com o filho e a mulher para nunca mais mexerem nele e foi dormir. Nos sonhos sempre havia uma manchinha na lateral como uma tela suja de uma TV.
Uma semana depois enquanto trabalhava perto do Nobel, observou aquela mesma mancha. Mas ele estava maior, sem dúvida estava.
Quando se aproximou para limpá-la observou do era feita aquela mancha. Era sangue, agora já coagulado.
Disse a si mesmo que era de algum mosquito esmagado indevidamente por sua mulher e limpou-a.
Três dias depois, ao pegar sua maleta que esquecera na salinha viu novamente seu premio manchado. Porém agora era grande, o que antes era um ponto, era agora uma semi-esfera, rubra, pulsando em sua direção.
Aquilo fora a gota d’água. Foi até a sala, e fez fisicamente o que sempre fazia com seu filho e sua mulher. Bateu.
Mudou a fechadura de sua salinha secreta, e guardou a única chave para si.
Dois dias depois, ele foi a salinha. Um cheiro estranho vinha de dentro. Caminhou até seu Nobel calmamente e viu aterrorizado a mancha; agora era uma marca nítida de mão humana e dessa vez estava em sangue fresco. Pelo tamanho da mão, tratava-se de uma criança.
Mas como era possível, se seu filho não tinha como entrar? Enquanto pensava nisso botou sua mão no premio, procurando entender o que aconteceu. Sentiu um frio ao tocar o Nobel, como nunca em sua vida havia sentido. Uma mãozinha pequena e cadavérica surgiu de trás do premio e tocou na sua. Olhou aterrorizado para o vão atrás d premio e viu o rosto deformado e frio, porém ainda nítido do que já fora uma criança.
Seu reflexo foi de tirar a mão e tropeçar no chão, e rastejar choramingando muito até a porta.
Saiu a toda e foi até seu quarto. Derrubou todo o conteúdo de sua gaveta no chão e encontrou o que procurava, um revólver que comprara com medo que roubassem seu precioso Prêmio. Enquanto fazia isso ele gritava, “Não pode ser ele, não pode.”
Não se preocupou com o barulho causado, pois sua mulher e seu filho haviam saído de casa no dia passado.
Correu até sua salinha tremendo muito e entrou. Segurava a arma como se fosse sua própria vida e caminhou até lá.
Cada passo que ele dava, ele tinha flashes de lembranças.
Quando enfim chegou ao premio, via claramente o menino escondido atrás de seu premio, como que saindo da sua parede.
O menino levantou sem se mexer e foi se arrastando até ele.
E enfim lembrou-se de tudo que lutava para esquecer. Ele era jovem e estava totalmente envolto por seu projeto. Era tudo genial, porém não havia jeito de continuar. Dependiam de conhecimentos de como a substancia agia em um ser vivo, o que liberava, o que eu induzia.
Seus colegas haviam tentando conseguir animais mas por fim desistiram. Não iriam forçar ninguém certo?
Mas ele continuava. Não podia desistir agora e sugeriu usarem cobaias humanas, pois seria mais fácil e eficaz no trabalho.
Seus colegas falaram que não podiam conseguir voluntários pois era perigoso demais e quase que certamente mortal. Então ele falou o inesperado; “Forcemos alguém então.”
Foi a gota d’água. Ele ficou sozinho e sem dinheiro.
Estava quase desistindo quando viu essa criança, um garoto não mais velho que seu filho, chorando perdido de seus pais. Ele nem mesmo pensou.
Levou o garoto até sue laboratório, dizendo saber onde estava seus pais e o trancou lá.
Pegou dinheiro emprestado com o Banco e prosseguiu sozinho seu macabro trabalho, o mesmo que deu seu premio Nobel.
O garotinho morto que estava em sua frente agora não disse nada. Apenas mostrou-lhe as cicatrizes do trabalho do cientista e foi até ele.
Chorando, o cientista agora não conseguia fazer nada, atirou a esmo uma vez e se ajoelhou.
Pequenas mãozinhas agarram seu rosto e o enterraram na parede.
Dias depois a polícia achou seu corpo destroçado em sua salinha, perto de seu premio Nobel, cravado com uma única bala.
Escondido perto de seu premio estava uma parede falsa, marcada com uma mancha de sangue de mão humana. Dentro desse esconderijo encontraram os detalhes de seu trabalho macabro, as torturas, a cobaia humana.
Todos temos esqueletos no armário.