Os 3 Mosqueteiros

Lucas


30/12/2009


 
 

30 Centímetros para o Ano-Novo

 

 

 

 

Dia 31 de Janeiro de 2009 às 23h30min.

Uma mulher estressada, no oitavo andar, apertava freneticamente o botão na esperança de que o elevador chegasse ao menos um pouco mais rápido.

Mas ele não estava indo para lá. Estava indo em direção ao décimo andar, onde um homem não tão estressado esperava pacientemente sua chegada.

 

Abriu a porta e entrou um tanto calmamente demais para que estava atrasado como ele.

Pensava: “Não devia ter perdido tanto tempo vendo as melhores músicas de 2009, mas putz tava muito engraçado. Espero que meus amigos não me matem por chegar atrasado, no show de final de ano do Paralamas do Sucesso.”

 

O elevador chegou finalmente ao oitavo andar e a mulher entrou como um raio

Sua mente estava a mil. “Droga, demorei demais para me arrumar, Tomara que consiga chegar a tempo para encontrar minhas amigas para ver os fogos.”

 

Sua ansiedade era aparente e forte, “Talvez se eu pegar a rua paralela eu consiga pegar outro ônibus que me leve mais rápido pela...”

“Da ba dee da ba dae. Hê, hê essa música pega mesmo.” divagava ele.

O elevador percorria constantemente lerdo seu percurso até a portaria. Nenhum sinal de conversa, nem um simples “oi” foi dito naquele elevador. O silêncio imperava.

 

E assim foi até o elevador parar. Mas o detalhe foi onde ele parou. Não foi na esperada portaria, nem mesmo em mais um andar aleatório. Ele parou simplesmente no meio do caminho, na brecha entre a portaria e o primeiro andar.

Em um solavanco seco parou. Era só o que faltava. A mulher surtou total.

 

Ela gritava, chorava, batia desesperada nas paredes, tentando empurrar o elevador só mais um pouquinho. “30 centímetros, somente malditos 30 centímetros para chegar à portaria.”, resmungava ela.

O homem olhava para um lado e para outro, um tanto como perdido mais do que preocupado.

 

Então ela olhou para ele, olhando para todos os cantos e se irritou de vez: “ Mas o que diabos você está fazendo? Não vê que estamos presos aqui, em pleno Réveillon! Vou perder a droga dos fogos!”

“Você acha que é a única aqui se prejudicando? Ah desculpa realeza, mas eu também não quero estar preso aqui com você. Vou perder também meu show com meus amigos entendeu?”

“Mas você não entende. Vai num show com amigos, fica aí despreocupado. Eu ralei o ano todo sozinha, batalhei tanto nesse ano, perdi emprego e tudo. Eu merecia algo melhor de ano novo que isso.”, ela chorava enquanto despejava tudo o que passara.

“Hei e eu? Não foi fácil também não. Perdi matérias na faculdade, lutei pra caraça, to trabalhando ainda. Também quero um descanso.”, ele também se emocionava.

 

Os dois começaram então em um silêncio profundo, a lembrar de tudo que passaram nesse ano, primeiro soltando discretas lágrimas até um choro inconsolável.

Lembravam das glórias, alegrias, tristezas, sofriam um enorme retrospectiva 2009 em apenas alguns segundos. Era muita emoção para segurar.

 

Então acidentalmente um tocou a mão do outro. E se olharam por reflexo.

O reflexo instintivo tornou-se carinho, que enfim tornou-se vontade; enquanto suas mãos subiam rumo à face um do outro e se aproximavam até que não houvesse mais distância entre seus lábios.

 

E de uma forma inesperada um tanto quanto previsível, nesse instante o elevador voltou a funcionar.

Porém ele não percorreu os 30 centímetros que faltavam para atingir a cobiçada portaria, nem mesmo voltou para o primeiro andar.

 

Ele subiu rumo ao décimo andar aonde enfim parou.

O homem olhou para a mulher e sorriu. “ Aceita me conceder a presença de sua realeza para passar o Réveillon em minha casa?”, dizia enquanto fazia um reverência e estendia o braço.

“Eu adoraria”, e enroscou seu braço no dele. E juntos foram rumo ao apartamento dele, com a certeza de que independente de como tivesse sido esse ano que passou esse ano de que vem agora promete.

 

Escrito por Os 3 Mosqueteiros às 21h35
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26/11/2009


É Hora


 

E ela vem. Inevitável, temida, constante.

Ouvimos histórias, relatos de como é que ela vem, como ela de fato é. Mas isso de nada adianta.

Preparamo-nos como podemos para o crucial momento que não podemos escapar.

Quando ela adentra a sala o silêncio se instala. Uma falta de som como o de respeito a um morto.

Vemos incapazes de fazer nada, ela chegar devagar para cada um de nossos amigos e colegas. Observamos suas reações, suas ações diante de sua aproximação silenciosa e mortífera.

Ao passar perto de nós, nossos olhos como que perdidos em meio ao pavor, busca de alguma forma desmistificá-la, torná-la mais tranqüila. Apelamos para reza ou para métodos mais ilícitos numa desesperada tentativa de enfraquecê-la. Mas de fato pouco adianta.

Logo era nossa vez. Não há mais depois. Ela se aproxima silenciosa.

Tingida do mais pálido branco e com linhas constantes do mais obscuro negro.

Agora chegou a hora.             

 

Mais um dia de prova.

Escrito por Os 3 Mosqueteiros às 22h03
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Mensageiro


 

Ouçam o que ele diz

Isso é um absurdo, inaceitável!

Quem ele pensa que é afinal?

Dizer-nos o que é respeitável

Isso só pode ser coisa do mal

 

Ouçam o que ele diz

Fala com tanta sabedoria, tanta paz

É um mensageiro do Amor

Tanto bem nos traz

Segui-lo-ei aonde for

 

Ouçam o que ele não diz

Veja suas atitudes, suas ações

São tão diferentes

Isso exige explicações

Confunde nossas mentes

 

Ouçam o que eu digo

Atentem ao que não digo, o que faço

Percebam o silêncio, alma, o ar

O que circunda a pessoa como invisível laço

Alguém sabe realmente escutar?

 

Ouçamos o que dizemos

Falamos o que não queremos ouvir

Silenciamos o necessário

Fazendo do certo uma miragem

O errado, não mais conseguimos discernir

Mas que fique aqui algo obrigatório

Matem o mensageiro, mas não descartem sua mensagem.

Escrito por Os 3 Mosqueteiros às 22h02
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17/11/2009


Maraca

 

Templo mundial do futebol

Monumento na cidade do eterno sol

Maracanã, que nos deixa insanos

Incendeia a alma, o coração

É alegria, é pura emoção

Nos vemos daqui a 2 anos

 

Apite comigo galera

Homenagear nosso troféu

Que marcou nossa era

Mistura perfeita do azul do céu

E o verde infinito da grama

Lá dentro a bola nos chama.

 

Na ola da galera

No grito de guerra

Cadeira, tribuna, arquibancada

Escolha sua visão

Que diante do espetáculo não resta pessoa sentada

Tamanha a admiração.

 

Maracanã de sol

Convocação inegável à alegria

Em uma união colorida de gente

O calor nem passa pela mente

Quando no grito do gol

O estádio se estremecer

É de enlouquecer.

 

Maracanã de chuva

Molhado de suor, de lágrimas

Marcado na chuteira, na luva

Tentar encaixar tamanha sensação nessas rimas?

Difícil diria impossível

Mas afinal o que é impossível

No palco onde a estrela é o incrível

Onde o belo se faz presente

Ligação das almas e corações

Emoção que não se entende, se sente

Se canta a plenos pulmões

Escrito por Os 3 Mosqueteiros às 19h20
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Uma carta para ela

 

Deixo tudo escrito. Nunca te vi, logo te amo. Existe amor a nenhuma vista? Pois agora eu crio.

Deixar escrito agora, para que mais tarde você com minha idade possa ler esse texto de uma forma diferente.

Farei meu melhor, cada mínimo esforço meu para ganhar um mínimo brilho de sorriso teu.

Não tentarei esconder o mundo de você, mas o revelarei da melhor forma possível ou menos pior.

Serei protetor quando necessário, paranóico quando não precisa, chato em ocasiões e companheiro sempre.

Serei seu degrau quando quiser subir alto, seu elevador quando quiser descer.

Serei um gelo quando sentir calor, um sol quando estiver frio.

Serei o mais feliz quando tiver sucesso, sua almofada quando cair.

Será meu orgulho, mesmo não fazendo nada. Ficarei horas olhando para você, simplesmente por olhar. Descobrirei a verdadeira arte de amar e se entregar sem limites.

Serei um eterno aluno, muitas vezes aprendendo contigo mais do que ensinando, mesmo que eu não demonstre isso. Afinal eu que tenho que ser o mais “sábio” certo?

Não se engane com o mundo, nada é tão ruim quando você imagina, nem tão bom quanto espera. É melhor quase sempre. Pois até uma tempestade permite o brotar de uma nova semente.

A vida é cíclica e ironicamente, e por que não, comicamente correta.

Brincarei contigo, falarei de problemas que não quer escutar, rirei de desenhos e brincadeiras que muito possivelmente não entenderei nada.

É normal que seja assim, o tempo passa, o amor não.

Então que tome seu tempo minha querida, que seja na hora devida. Mas acredite certa que quando for a hora de sua historia começar nesse mundo, está um sorriso sincero e emocionado a te esperar de braços e coração aberto; seu pai, eu.

Escrito por Os 3 Mosqueteiros às 19h19
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10/11/2009


Silêncio


 

E era tudo silêncio. Um silêncio profundo, desconfortável.

Não como aqueles silêncios de antecipação a uma festa surpresa ou de brincadeira de “não pode falar”. Era mais como o silêncio em uma conversa quando não há mais assuntos, ou o posterior a um fora. Mas era ainda pior.

Era em toda a casa, em todo o lugar. Olhar para o quarto ou fotos não ajudava, parecia apenas aprofundar a eterna falta de som.

Era um silêncio seco de antecipação a algo que nunca iria chegar. Era um silêncio diferente, pois ainda ouvia coisas que não estavam lá.

Ouvia claramente a porta fechando e ele chegando com sua mochila colorida entulhada de materiais, dizendo alegremente que tinha um novo dever de casa e que aprendera coisas novas hoje. Sentia seus passos singelos chegando com sua bola quicando no chão, perguntando se podia brincar lá fora. Escutava ele gritando de seu quarto “boa noite” antes de dormir.

E como no silêncio que agora perpetuava, ele partiu; se mochila, sem bola, sem boa noite.

Isso não estava certo. Isso não era a ordem natural das coisas. Filhos deveriam enterrar seus pais não o contrário. Pois quando um pai enterra seu filho, está na verdade enterrando a si mesmo, perdendo um pedaço vital que aprendeu a não viver sem, e que jamais será reposto.

E toda noite quando ia se deitar dizia boa noite ao marido, com quem dividia o peso do eterno silêncio e um boa noite silencioso, porém real, para o qual pra ela havia resposta, em alto e bom som. “Boa noite mãe.”

Escrito por Os 3 Mosqueteiros às 21h47
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06/11/2009


Olhos Verdes


 

Se acaso sou gentil demais

Se elogio ao ponto de perturbar

Foi por não conseguir explicar

Foi para demonstrar o bem que você me faz,

Diariamente, a todo o momento

Pois é no frio do descaso

No vazio do que nunca foi dito

Que sucumbem amores e amizades.

 

Se te apoio incondicionalmente

Se sempre busco estar presente

Foi para mostrar sua importância

Que em meu pensamento você é uma constância

Foi para fisicamente fazer o que meu coração sempre faz.

 

Se gaguejo na sua frente

Se por vezes embaralho nas palavras ao falar

Não é culpa minha, entenda

Estar ao seu lado é um prazer tão difícil

Nas minhas tentativas tolas de sempre te impressionar

Esqueço que a imperfeição humana

É uma condição da vida mundana.

 

Se te encho com textos

Se de poemas e poesias está cheia

Tente entender, por favor,

O lápis tem vontade própria

Lê o que fala o coração

Escreve para o mundo a alegria que não cabe em mim

Pois ainda que uma imagem valha mil palavras

Seu sorriso vale mil textos.

 

Se te ligo sem qualquer motivo

Se faço perguntas sem sentido

Não é por carência a mais

Mas por gostar demais

Que culpa tenho eu se sua voz é tudo que preciso

Se quando me encho de medo ou insegurança

Apenas uma frase sua “Você vai conseguir isso.”

É tudo que basta para eu ter esperança

 

Enxergo em você coisa sem igual

Preciosidade extrema em cada detalhe

E se me perguntam se vale mesmo tanta dedicação

Digo com orgulho nos olhos, vale.

 

Foi seus olhos que me encantaram

Refletiam, lindos, seu jeito de ser

Verdes mar, de ondas que nunca param

Verdes floresta, que duram a eternidade

Verdes esperança, verdes Jade

Verdes, verdes, tão lindos de se ver

 

Foi seu jeito que me cativou

Mulher guerreira, merece cada mínimo ganho

Mulher menina, tão singela

Menina mulher, tão forte

Mulher vitoriosa, com o mundo para conquistar

Torço pra que na vida também tenha sorte

Pois tenho certeza que foi feita para brilhar

E é assim especial e tão bela

Conhecer você foi minha maior sorte. 

 

Então obrigado por tudo amor

Estou eternamente jurado para morrer de amor

Hoje admito sem qualquer dor

Sou para sempre seu admirador.

Escrito por Os 3 Mosqueteiros às 22h31
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03/11/2009


Um rosto no escuro


 

Um rosto vazio no escuro

Sentimentos sinceros, profundos

Seu corpo inteiro está obscuro

E sua mente diversos mundos.

 

Quem vê rosto não vê alma

Quem chuta o que ele viveu?

Nada está claro, nada está certo

É melhor você ficar mais esperto

Nunca se sabe quando será o seu.

 

Dizem-me ser de bom humor

Disseminador de alegrias pelo mundo

Mas se hoje rio é porque aprendi a chorar

Se hoje divirto é porque conheço a dor

Se tento mudar o mundo é por temer o pior

 

Guerreiro forjado a fogo da vida

Vencedor coroado a força e suor

A cada dia é um novo pecado venenoso

Um eterno batalhar silencioso.

 

Conheci vales e depressões

Lutei minhas próprias batalhas

Venci as diversas pressões

Ainda hoje enfrento dia-a-dia

Os pecados que me retalham.

 

E hoje proponho viver minha vida

De uma forma inusitada

Preciosamente recitada

Em um verso musical que firmemente diz

“Viver e não ter a vergonha de ser feliz”

Escrito por Os 3 Mosqueteiros às 23h18
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31/10/2009


Esqueletos no armário


 

Estava tudo bem. Sempre estava tudo tranqüilo em sua vida. Fazia questão disso, controlava tudo para manter a total ordem.

Era excessivamente metódico, mas estava cada vez pior. Controlava clinicamente cada mínimo detalhe de tudo. Mas o que importava era que estava tudo indo de vento em popa.

Seu casamento estava indo bem na medida do possível, seu filho não estava descontente com ele (o que já era muita coisa) e o mais importante, sua carreira estava voando baixo. Tudo graças a ele, o famoso e cobiçado Premio Nobel, o Oscar da ciência.

Sim ele havia ganhado, suou até o fim, lutou e conseguiu. Era agora um cientista mundialmente conhecido e elogiado. Oportunidades de emprego maravilhosas choviam aos seus pés. E o dinheiro entrava em uma facilidade nunca antes vista.

Todo dia ele ia até a sala do premio, olhava para ele por algum tempo, limpava e ia embora. Era sem dúvida o mais precioso de seus bens.

Orgulhava-se de todo seu esforço e por nunca ter feito nada que se arrependesse. Arrependimento naquele homem era nulo.

Então começou. Um dia normal, ele foi novamente ver seu premio valioso. Olhou fixamente para o Nobel por horas em silencio e quando ia embora viu; uma pequena porém ainda assim extremamente irritante manchinha na parte lateral de seu amado premio.

Na hora ficou extremamente nervoso. Limpou-a com um pano rapidamente e foi embora.

Brigou com o filho e a mulher para nunca mais mexerem nele e foi dormir. Nos sonhos sempre havia uma manchinha na lateral como uma tela suja de uma TV.

Uma semana depois enquanto trabalhava perto do Nobel, observou aquela mesma mancha. Mas ele estava maior, sem dúvida estava.

Quando se aproximou para limpá-la observou do era feita aquela mancha. Era sangue, agora já coagulado.

Disse a si mesmo que era de algum mosquito esmagado indevidamente por sua mulher e limpou-a.

Três dias depois, ao pegar sua maleta que esquecera na salinha viu novamente seu premio manchado. Porém agora era grande, o que antes era um ponto, era agora uma semi-esfera, rubra, pulsando em sua direção.

Aquilo fora a gota d’água. Foi até a sala, e fez fisicamente o que sempre fazia com seu filho e sua mulher. Bateu.

Mudou a fechadura de sua salinha secreta, e guardou a única chave para si.

Dois dias depois, ele foi a salinha. Um cheiro estranho vinha de dentro. Caminhou até seu Nobel calmamente e viu aterrorizado a mancha; agora era uma marca nítida de mão humana e dessa vez estava em sangue fresco. Pelo tamanho da mão, tratava-se de uma criança.

Mas como era possível, se seu filho não tinha como entrar?  Enquanto pensava nisso botou sua mão no premio, procurando entender o que aconteceu. Sentiu um frio ao tocar o Nobel, como nunca em sua vida havia sentido. Uma mãozinha pequena e cadavérica surgiu de trás do premio e tocou na sua. Olhou aterrorizado para o vão atrás d premio e viu o rosto deformado e frio, porém ainda nítido do que já fora uma criança.

Seu reflexo foi de tirar a mão e tropeçar no chão, e rastejar choramingando muito até a porta.

Saiu a toda e foi até seu quarto. Derrubou todo o conteúdo de sua gaveta no chão e encontrou o que procurava, um revólver que comprara com medo que roubassem seu precioso Prêmio. Enquanto fazia isso ele gritava, “Não pode ser ele, não pode.”

Não se preocupou com o barulho causado, pois sua mulher e seu filho haviam saído de casa no dia passado.

Correu até sua salinha tremendo muito e entrou. Segurava a arma como se fosse sua própria vida e caminhou até lá.

Cada passo que ele dava, ele tinha flashes de lembranças.

Quando enfim chegou ao premio, via claramente o menino escondido atrás de seu premio, como que saindo da sua parede.

O menino levantou sem se mexer e foi se arrastando até ele.

E enfim lembrou-se de tudo que lutava para esquecer. Ele era jovem e estava totalmente envolto por seu projeto. Era tudo genial, porém não havia jeito de continuar. Dependiam de conhecimentos de como a substancia agia em um ser vivo, o que liberava, o que eu induzia.

Seus colegas haviam tentando conseguir animais mas por fim desistiram. Não iriam forçar ninguém certo?

Mas ele continuava. Não podia desistir agora e sugeriu usarem cobaias humanas, pois seria mais fácil e eficaz no trabalho.

Seus colegas falaram que não podiam conseguir voluntários pois era perigoso demais e quase que certamente mortal. Então ele falou o inesperado; “Forcemos alguém então.”

Foi a gota d’água. Ele ficou sozinho e sem dinheiro.

Estava quase desistindo quando viu essa criança, um garoto não mais velho que seu filho, chorando perdido de seus pais. Ele nem mesmo pensou.

Levou o garoto até sue laboratório, dizendo saber onde estava seus pais e o trancou lá.

Pegou dinheiro emprestado com o Banco e prosseguiu sozinho seu macabro trabalho, o mesmo que deu seu premio Nobel.

O garotinho morto que estava em sua frente agora não disse nada. Apenas mostrou-lhe as cicatrizes do trabalho do cientista e foi até ele.

Chorando, o cientista agora não conseguia fazer nada, atirou a esmo uma vez e se ajoelhou.

Pequenas mãozinhas agarram seu rosto e o enterraram na parede.

Dias depois a polícia achou seu corpo destroçado em sua salinha, perto de seu premio Nobel, cravado com uma única bala.

Escondido perto de seu premio estava uma parede falsa, marcada com uma mancha de sangue de mão humana. Dentro desse esconderijo encontraram os detalhes de seu trabalho macabro, as torturas, a cobaia humana.

 

Todos temos esqueletos no armário.

Escrito por Os 3 Mosqueteiros às 21h03
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27/10/2009


Passos e Descompassos


 

Cada passo que dou hoje

Já temia antes de dar

Receoso, fingia acreditar

Que o hoje nunca iria chegar

 

Sigo persistindo meu caminho

Caminho construído, bordado a sangue e suor

Passos certos, até devagarinhos

No final o destino leva a melhor.

 

Meu próprio caminho já não sei

Embaralhado em meus próprios pés

Sinto o chão cada vez mais perto

Uma inevitável queda é certo.

 

Aonde vai você com tanta pressa?

Não vê que vai pelo caminho inverso?

Já vivi coisa assim

Errei, tropecei, me ralei

 Enfim paguei, por meus passos tortos

Mas estou longe dos mortos.

Me reergui, e andei

E hoje eu enfim eu sei

Que o caminho certo não é aquele que mais chama sua atenção

Mas aquele onde está seu coração.

Escrito por Os 3 Mosqueteiros às 21h45
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Beleza Mexicana


 

Pele queimada do sol

Corpo pecaminoso de puro

Olhos faiscantes de puro mel

Cabelos caídos em ondas

 

Seu corpo exalava sensualidade

Escultura perfeita

Gasto feliz toda a eternidade

Perdendo-me por todo seu relevo

 

Nosso romance era lua-de-mel

Mergulhos nas águas de Cozumel

Era por de sol de uma tarde clara

De Acapulco a Guadalajara.

 

Especial, caliente

Um “yo te quiero” dito ao pé do ouvido

Arrepios e gemidos

Era surpreendente.

 

Como tão rápido pude me apaixonar?

Não consigo mais dela não pensar?

Entre tantas perguntas só uma me interessa

¿Quieres casarte conmigo?

Escrito por Os 3 Mosqueteiros às 21h44
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20/10/2009


Espera


 

O nervosismo sem fim. Era impressionante o que o nervosismo, a ansiedade sem controle fazia no corpo.

Meu pé não mais respondia, batia repetidamente no chão, ecoando no corredor vazio do hospital. As paredes brancas me davam angústia, queria sair logo de lá.

Mas o mais importante, tinha de saber como estava minha mulher.

O tempo parecia não existir naquele corredor branco. Para mim foram horas, dias, semanas inteiras preso naquele lugar, sem notícias, sem nada.

Várias perguntas passavam em minha cabeça e me atormentavam: “Fiz tudo o que podia fazer de verdade?”, “Como ela está?”.

Todos diziam que eu havia feito de tudo certo, agora só o que eu tinha que fazer era esperar, sem problemas. Até parece. A espera parecia ser a pior tortura já inventada, sentia toda minha mente divagando, ansiedade tomando todo meu corpo.

Quando então apareceu. A enfermeira surgiu no fim do corredor, andando lentamente, silenciosa como uma brisa, até onde estava a pilha de nervos que já fui eu um dia.

Ao chegar bem perto olhou para mim com os olhos focados e disse calmamente: “Acabou senhor. Nasceu. E é uma linda menina.”

A alegria sem fim. Uma história acaba e uma ainda melhor acaba de se iniciar.

Escrito por Os 3 Mosqueteiros às 22h53
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17/10/2009


Um Dia das Crianças


 

Estava naquela famosa fase dos “Por quês?”. Era “por que” pra lá, “por que” pra cá e um eventual “ por que não?”, habitando cada mínima frase que saía de sua boca.

Veio com essa no dia 11 de outubro, véspera do esperado dia das Crianças. Seu pai estava sentado no sofá, ocupado lendo e relendo seu jornal de hoje, quando ele veio espreitando calmamente, esperando a hora certa para disparar sua pergunta.

“Pai, você pode ganhar presente amanhã?”, perguntou determinado o garotinho. O pai ainda olhando para o jornal disse, “Não filho, só crianças podem”.

O garotinho abaixou um pouco a cabeça, e voltou correndo para o seu quarto. No meio dos seus brinquedos parou e ficou lá pensando, quietinho. De repente voltou correndo para a sala.

“Pai e a mamãe? Ela pode?”. O pai já começando a ficar meio perturbado falou “Não filho. Nem a mamãe, nem o papai, nem a vovó, a titia, o cachorro, nem ninguém que não seja criança”.

Mais silêncio, mais pensamentos na cabeça do pequenino. E finalmente mais uma pergunta: “Mas pai, afinal quem decide quem é criança?”

O pai falou: “Quem é pequeno, filho”.

“Mas pai, mamãe tem uma amiga que é baixinha então...”. O pai já tinha perdido a paciência que ainda restava, “ Olha filho, criança é quem não tem que pensar em contas, em problemas, não tem que se preocupar com nada, ouviu?”

O garotinho olhou um pouco curioso e disse: “Mas quem falou isso?”. O pai voltando a ler o jornal gritou, “É uma lei escrita. Ouviu?”.

O garotinho acenou a cabeça em silencio e foi para o seu quarto. Pensou o dia e a tarde toda, por entre seus livros e brinquedos. De noite deitou em sua cama e fechou os olhos devagar. No meio da madrugada teve uma idéia.

Veio como um vaga-lume silenciosamente e iluminou a cabeça do menino. Botou seus chinelos, pegou matérias e foi para o quintal.

Era de manhã e a mãe fazia o que sempre fazia dia das Crianças. Acorda mais cedo para preparar um café reforçado para seu querido filho. Quando terminou tudo foi para o quarto dele para acordá-lo carinhosamente, quando viu que a cama estava somente com o contorno do corpo do menino. Procurou pela casa toda, chamando no início depois gritando seu nome.

Acordou o marido em pânico e explicou que não encontrava o menino em lugar algum. Eles dois reviravam cada canto da casa e nada. Até ouvirem um barulho fraco e constante do lado de fora da casa, no quintal ensolarado.

Abriram a porta e viram o menino adormecido embaixo de um painel imenso todo pintado a mão com tinta guache onde se lia “Feliz Dia das Crianças Pai, Mãe, Avó, Tia, Cachorro...”

Ele tinha trabalhado a madrugada toda fazendo esculturas de massinhas para cada pessoa e embrulhado cada uma delas com um papel de presente.

O pai pegou o filho no colo e disse, “Mas por que tudo isso?”. O filho com os olhos semi-aberto disse sonolento “Eu não queria que ninguém ficasse sem ganhar nada hoje. E vi isso”. Mostrou um pedaço do jornal que o pai estava lendo ontem e mostrou uma notícia que falava sobre as compras nesse feriado onde se lia uma frase: “Nesse feriado ninguém vai precisar se preocupar com nada, somente descanso”.

Virou para o pai e disse, “Viu, hoje você é criança, e todo mundo é. É uma lei escrita”, enquanto mostrava uma pintura que tinha feito em um papel onde se lia: “ Lei número 12345789. Hoje todos são crianças.”

Enquanto o pai olhava para ele com lágrimas nos olhos, o garotinho sorriu e disse: “Feliz Dia das Crianças, Pai”.

 

Homenagem a aqueles que nos ensinam diariamente o que realmente significa ser humano.

Escrito por Os 3 Mosqueteiros às 23h33
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13/10/2009


Eclipse ao meio-dia



Era quase meio-dia. Na verdade era quase meio-dia de mais um dia excessivamente normal e até um ponto entediante.

Da janela de seu pequeno escritório imobiliário, ele somente observava a vida lá fora, correndo livre e solta sob o lindo céu azul.

Como ele gostaria de estar lá fora agora, curtindo um pouco desse sol, beber algo, quem sabe comer um bolinho de arroz rapidinho. Mas não podia, tinha que trabalhar, terminar tudo rapidamente para poder chegar em casa cedo, encontrar sua namorada e quem sabe enfim descansar.

O tempo parecia não passar dentro do escritório espelhado. Decidiu então parar por uns minutos e tomar um copo de água lá dentro. Foi então que aconteceu.

Foi tão de repente que ele nem mesmo percebeu o que de fato acontecera.

Um brilho, o mais forte que já vira na vida inteira, emergia no meio da cidade. Segundos depois tudo era trevas. O dia tornou-se noite por completo.

Como que cavalgando uma nuvem enorme de poeira vinha em sua direção, engolindo tudo em seu caminho. Pessoas, carros, tudo desaparecia rapidamente e logo ela chegou, junto com uma onda de impacto.

O vidro todo do humilde escritório explodiu em um grito sinistro, enquanto ele e todo o seu material do escritório voavam para trás violentamente.

Bateu a cabeça na parede e caiu seco no chão imundo e repleto de objetos destruídos. Ao levantar os olhos ainda terrivelmente perplexos e assustados, viu algo que nunca mais conseguiria esquecer.

No momento parecia extremamente estanho e improvável, mas foi o que viu, um cogumelo gigante de fumaça reinando absoluto sobre a antes linda cidade.

Tentou andar e foi para a rua. Tudo estava em ruínas.

A cada passo reconhecia uma construção destruída, uma pessoa conhecida morta. Viu no chão a placa de seu humilde escritório imobiliário, batizado com o nome da cidade que tanto admirava: “Imobiliária Hiroshima”.

Então pensou em algo e correu, desesperado, por entre as ruínas destroçadas, os corpos carbonizados. Correu o quanto podia, sem se contaminar com o cheiro da morte que emanava no lugar.

Então chegou onde queria, Rua 33, onde ficava seu antigo lar, era agora uma rua sinistra e escura. Chegou até sua casa e parou na entrada. Perdeu as forças e então caiu de joelhos. Reconheceu o anel que dera a sua namorada, brilhante e lindo, em um dedo queimado em meio aos escombros.

Saiu andando cambaleante, observando as pessoas queimadas chorando, esqueletos de pessoas que até pouco tempo atrás estavam felizes em curtir o céu azul

Céu azul? Agora era negro como carvão. De repente começou a chover, no início fraco, depois mais forte.

Mas não era gotas de água que caíam. Gotas negras, gordas caíam do céu, como miniaturas da bomba que gerou tudo aquilo. E todos bebiam felizes.

Enfim conseguiu deixar a cidade, ou o que restou dela e viu o céu novamente, azul brilhando fora da cidade, como se nada tivesse acontecido.

Depois dessa precisava se isolar. Decidiu então ficar na casa de seu irmão, a quilômetros de distancia de todo aquele inferno. Ficaria bem até que tudo voltasse ao normal, na aconchegante casa de seu irmão em Nagasaki.

Escrito por Os 3 Mosqueteiros às 22h13
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07/10/2009


Quebra-cabeça



 

Posso me dizer paciente quando grito com os outros? Posso ensinar lições de bondade quando nego uma ajuda a alguém?

Considero-me honesto quando acoberto um crime mesmo que passivamente? Sou guerreiro quando fujo de meus medos?

Não, somos todos imperfeitos. Peças irregulares de um gigante quebra-cabeça incompleto. O encaixe que me falta existe no outro.

E assim, um encaixando onde o outro não consegue, montamos lentamente uma imagem. E qual será ela?

De paz, amor, discórdia? De unidade ou ignorância? De justiça ou trevas?

Isso já não nos pertence. Como meras peças, fazemos o que fomos feitos para fazer, encaixamos, uns nos outros, completando-nos, ajudando-nos a encontrar enfim nosso lugar de direto.

Regidos por uma Mão forte e superior que nos coordena, nos move, nos coloca nos lugares corretos, no momento mais oportuno.

Talvez nos pareça estarmos deslocados naquela posição, mas não temos a visão de cima, não sabemos o que de fato está se formando.

Quanto a isso tudo posso ter certeza que no fim desse jogo vamos todos para o mesmo lugar, todas as peças de volta a sua caixa de origem. Umas maiores, outras menores, todas vão a seu devido tempo para o fundo da caixa, em plena igualdade.

Embora pareça que certas peças sejam mais importantes que outras na construção da imagem, todas são necessárias para formar o quadro.

E enfim nos silenciamos, cientes que afinal a imagem está completa.

Escrito por Os 3 Mosqueteiros às 23h16
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