30 Centímetros para o Ano-Novo

Dia 31 de Janeiro de 2009 às 23h30min.
Uma mulher estressada, no oitavo andar, apertava freneticamente o botão na esperança de que o elevador chegasse ao menos um pouco mais rápido.
Mas ele não estava indo para lá. Estava indo em direção ao décimo andar, onde um homem não tão estressado esperava pacientemente sua chegada.
Abriu a porta e entrou um tanto calmamente demais para que estava atrasado como ele.
Pensava: “Não devia ter perdido tanto tempo vendo as melhores músicas de 2009, mas putz tava muito engraçado. Espero que meus amigos não me matem por chegar atrasado, no show de final de ano do Paralamas do Sucesso.”
O elevador chegou finalmente ao oitavo andar e a mulher entrou como um raio
Sua mente estava a mil. “Droga, demorei demais para me arrumar, Tomara que consiga chegar a tempo para encontrar minhas amigas para ver os fogos.”
Sua ansiedade era aparente e forte, “Talvez se eu pegar a rua paralela eu consiga pegar outro ônibus que me leve mais rápido pela...”
“Da ba dee da ba dae. Hê, hê essa música pega mesmo.” divagava ele.
O elevador percorria constantemente lerdo seu percurso até a portaria. Nenhum sinal de conversa, nem um simples “oi” foi dito naquele elevador. O silêncio imperava.
E assim foi até o elevador parar. Mas o detalhe foi onde ele parou. Não foi na esperada portaria, nem mesmo em mais um andar aleatório. Ele parou simplesmente no meio do caminho, na brecha entre a portaria e o primeiro andar.
Em um solavanco seco parou. Era só o que faltava. A mulher surtou total.
Ela gritava, chorava, batia desesperada nas paredes, tentando empurrar o elevador só mais um pouquinho. “30 centímetros, somente malditos 30 centímetros para chegar à portaria.”, resmungava ela.
O homem olhava para um lado e para outro, um tanto como perdido mais do que preocupado.
Então ela olhou para ele, olhando para todos os cantos e se irritou de vez: “ Mas o que diabos você está fazendo? Não vê que estamos presos aqui, em pleno Réveillon! Vou perder a droga dos fogos!”
“Você acha que é a única aqui se prejudicando? Ah desculpa realeza, mas eu também não quero estar preso aqui com você. Vou perder também meu show com meus amigos entendeu?”
“Mas você não entende. Vai num show com amigos, fica aí despreocupado. Eu ralei o ano todo sozinha, batalhei tanto nesse ano, perdi emprego e tudo. Eu merecia algo melhor de ano novo que isso.”, ela chorava enquanto despejava tudo o que passara.
“Hei e eu? Não foi fácil também não. Perdi matérias na faculdade, lutei pra caraça, to trabalhando ainda. Também quero um descanso.”, ele também se emocionava.
Os dois começaram então em um silêncio profundo, a lembrar de tudo que passaram nesse ano, primeiro soltando discretas lágrimas até um choro inconsolável.
Lembravam das glórias, alegrias, tristezas, sofriam um enorme retrospectiva 2009 em apenas alguns segundos. Era muita emoção para segurar.
Então acidentalmente um tocou a mão do outro. E se olharam por reflexo.
O reflexo instintivo tornou-se carinho, que enfim tornou-se vontade; enquanto suas mãos subiam rumo à face um do outro e se aproximavam até que não houvesse mais distância entre seus lábios.
E de uma forma inesperada um tanto quanto previsível, nesse instante o elevador voltou a funcionar.
Porém ele não percorreu os 30 centímetros que faltavam para atingir a cobiçada portaria, nem mesmo voltou para o primeiro andar.
Ele subiu rumo ao décimo andar aonde enfim parou.
O homem olhou para a mulher e sorriu. “ Aceita me conceder a presença de sua realeza para passar o Réveillon em minha casa?”, dizia enquanto fazia um reverência e estendia o braço.
“Eu adoraria”, e enroscou seu braço no dele. E juntos foram rumo ao apartamento dele, com a certeza de que independente de como tivesse sido esse ano que passou esse ano de que vem agora promete.
















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